sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ai, que medo!

Nunca foi de falar demais. Assim era o Tião.

No entanto, ele tinha uma certa mania: quando acordava de mau-humor, o que não era raro, invariavelmente soltava algumas "pérolas" que tinham como alvo os ouvidos da Marocas, sua paciente cara-metade, esta, como sempre, já se preparando para saltar da cama.

Não me prestarei a repetir os palavrões e as ofensas dirigidas à vida, ao país, aos políticos(esses, os que mais mereciam!), ao mundo e à mulher que se esgueirava da cama, silenciosa, depois de dirigir uma curta prece ao Criador e fazer o sinal da cruz.

Mas num dia daqueles, o Tião acordou e não viu a Marocas ao seu lado.

-Marocas! Ó Marocas! Onde, diabos, se meteu essa vaca assim tão cedo que nem se dá ao luxo de me responder? Responde, anda Marocas! Que merda! Cadê a minha roupa, mulher?

Acostumado a ter sempre uma muda de roupa numa cadeira e os chinelos alinhados ao lado da cama, a sua estranheza era mais do que compreensível.

Irado, Tião saltou da cama, bexiga cheia, e, mesmo em cuecas, deixou o quarto e, depois de uma rápida aliviada na privada situada bem em frente à porta do dormitório, em dois passos atingiu a porta da sala, na qual parou de chofre, não só engasgado como também aterrorizado pelo que via.

Havia um grupo de pessoas no pequeno aposento. Alguns falavam baixo, outros oravam e, bem no meio da sala, havia sido montada uma câmara ardente, motivo do seu susto. Tião espichou o pescoço, cruzando as pernas envergonhado por estar em trajes menores. Gritou, apavorado, ao reconhecer o finado:

-Cristo Senhor! Sou eu! Eu morri e não me dei conta disso! E agora, o que faço?

Ele viu Marocas chorando copiosamente ao lado do caixão.

Atarantado, ele voltou para o quarto, enfiando-se sob as cobertas, tremendo e sentindo uma dor de barriga insuportável. Fechou os olhos, agoniado.

Quando abriu de novo os olhos, deu de cara com Marocas que o sacudia, preocupada.

-Que aconteceu, homem de Deus? Está doente? Que cara é essa? Hum! O que é isso? Que fedor insuportável!

A mulher tapou as narinas, sufocada.

-Credo! O que foi isso, Tião? Raios, homem! Emporcalhou os meus lençóis e até mesmo o colchão novo! Que horror!

A coisa boa dessa estória: Tião nunca mais acordou mal-humorado.
Podem acreditar: Ele e Marocas viveram felizes para sempre!

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